Imagine-se uma casa não totalmente colada ao chão, uma rua cujas pedras foram calcetadas por passos de dança. Imaginem-se esquinas guardadoras de cheiros, janelas guardiãs de crianças. Imagine-se que é possível bailar com a luz e caminhar de olhos fechados graças ao mapa dos perfumes. Imaginem-se pés inteligentemente descalços, meias que conquistam vida própria, sapatos atracados à sombra como barcos. Imagine-se um pedaço de África, uma banda paralela ao poleiro do Avô e ao Mar mais antigo ainda. Imagine-se o cinema da infância a projetar imagens no ecrã do futuro e a ser reenquadrado pelo presente a três dimensões. Ou antes: não se imagine, permita-se que o imaginário coletivo re-imagine as imagens remotas de cada um tão-só através das memórias reais e imaginadas de um ser outro.